De que trata O LIVRO DE PEDRA DO VING TSUN?
O LIVRO DE PEDRA DO VING TSUN é um livro de papel sobre um livro de pedra. Ele diz respeito a uma obra de arte não muito conhecida do grande público, composta por 51 selos de pedra e produzida conjuntamente por dois chineses (Moy Yat e Kwong Chi Nam), na década de 60 do século passado.
Essa obra de arte, intitulada “Inscultura Sigilar dos Ditados do Ving Tsun” (“Ving Tsun Kuen Kuit Suen Hak”) representa o mais alto ideal da milenar cultura chinesa: o cultivo simultâneo de artes de naturezas opostas.
Entende-se que as artes se repartem em man e mo. Na primeira, encontram-se as mais intelectuais, como as plásticas; na última, as predominantemente físicas, como as marciais. A “Inscultura Sigilar dos Ditados do Ving Tsun” engloba ambos os aspectos: man na forma e mo no conteúdo.
Entende-se melhor o tema de O LIVRO DE PEDRA DO VING TSUN quando se possui uma idéia do que sejam seus temas: a Inscultura Sigilar – através da qual se revela o aspecto man da obra mencionada – e o Ving Tsun – através do qual se revela o aspecto mo da mesma.
O que é Inscultura Sigilar?
“Inscultura Sigilar” é uma possível tradução para Suen Hak, o nome chinês da arte de produzir os sigilos ou selos tradicionais, a mesma empregada na feitura da obra retratada em O LIVRO DE PEDRA DO VING TSUN. “Inscultura” é o ato de insculpir, inscrever; “sigilar” (assim como “lapidar” ou “tumular”) indica o objeto da inscultura, que é o sigilo, selo ou carimbo.
Não se devem confundir inscultura e escultura. Enquanto esta consiste na criação de formas plásticas em volumes ou relevos (por modelagem de substâncias, pelo desbaste de sólidos ou pela reunião de materiais), a inscultura refere-se especificamente à produção de caracteres ou figuras em matéria dura (metal, pedra, madeira, etc.), utilizando instrumento cortante (buril, faca, cinzel, talha, estilo, etc.).
O que são os selos tradicionais chineses?
Embora sejam sejam representantes de uma das culturas mais antigas sobre a terra, os selos tradicionais chineses são ainda muito presentes em nossos dias. Não é difícil encontrá-los. Figuram na maioria das pinturas tradicionais chinesas que podem ser vistas em qualquer restaurante típico, em marcas de empresas e em símbolos de eventos. Um exemplo de símbolo é o das Olimpíadas de 2008, cuja figura vemelha (ao mesmo tempo um homem em movimento e o nome da cidade que sediará o evento), consiste num selo tradicional chinês.
Os selos são pequenas peças, geralmente feitas de pedra, contendo em si inscrições que são transferidas para outra superfície com a aplicação de uma tinta especial. No princípio, os selos foram usados como meio de autenticar materiais e documentos. Com o passar do tempo, porém, tornaram-se objetos de apreciação artística. O conteúdo das inscrições pode ser bastante variado, podendo ir de nomes de pessoas até poesias.
O que é Ving Tsun?
Ving Tsun é uma arte marcial chinesa (Kung Fu) que vai muito além dos conceitos de defesa pessoal, atividade esportiva, equilíbrio, disciplina e boa forma física. Ainda que as virtudes combativas do Ving Tsun sejam muitas, representam apenas uma pequena parcela de seu potencial. A idéia básica é utilizar a experiência marcial como instrumento para que o indivíduo possa desenvolver um tipo de inteligência estratégica que lhe seja útil em outros âmbitos de sua vida.
A arte foi desenvolvida na China, por uma mulher, há cerca de 300 anos, e é resultado da aplicação de princípios da cultura chinesa clássica, registrada em livros mundialmente famosos, tais como o I Ching, A Arte da Guerra e o Tao Te Ching. Por esse motivo, as famílias tradicionais chinesas viram nela um eficaz meio de educação de seus filhos.
Livro de pedra?
Quando falamos em livro pensamos logo, do ponto de vista da forma, numa reunião de folhas de papel unidas de modo a constituir um volume recoberto por uma capa; do ponto de vista do conteúdo, pensamos em uma tema organizado de maneira coesa e apresentado de maneira suficientemente completa. No entanto, nem sempre os livros foram como os que conhecemos hoje; e nem sempre, é óbvio, a escrita foi feita sobre papel.
Antes do surgimento desse prodigioso material, os povos utilizaram diversos tipos de material para suporte de sua escrita. Os chineses utilizaram carapaças de tataruga, vasos de bronze, tiras de bambu, blocos de pedra, etc.
O uso de cada um desses materiais acaba por dizer muito sobre o que está neles escrito. A escolha da pedra, por exemplo, parece estar ligada ao desejo de eternidade: o desgaste desse material é muito pequeno ao longo das eras. O emprego da pedra indica, portanto, a importância do conteúdo a ser registrado: deve haver interesse para muitas outras gerações. Uma vez que a rasura não é factível, o conteúdo deve ser definitivo. Não é sem propósito que vemos pedras sendo utilizadas em lápides e em monumentos...
Os elementos da coleção de selos de pedra possuem uma estrutura análoga à de um livro organizado por capítulos, cada um deles refletindo um dos vários temas que constituem a tradição oral do Ving Tsun, transmitida de mestre a discípulo ao longo de gerações a fio, desde sua fundação no século XVIII.
Do que se tem conhecimento, há apenas um trabalho feito na mesma linha da “Inscultura Sigilar dos Ditados do Ving Tsun”, ou seja, com um interesse de produzir uma compilação. Trata-se do “Tesouro da Família de Wing Chuen” (“Wing Chuen Ga Bo”), produzido pelo artista plástico Fung Hon Hau, em 1935. O trabalho do sr. Fung totaliza 100 selos de pedra. Seu conteúdo consiste numa coletânea de frases da famosa família Chan. Hoje, o “Tesouro de Wing Chuen Ga” encontra-se disperso ali e acolá, destino que felizmente não teve a “Inscultura Sigilar dos Ditados do Ving Tsun”, que está integralmente preservada no acervo particular da família Moy, em New York.
Qual é a idéia de ter duas versões do mesmo livro?
A primeira edição do primeiro volume de O LIVRO DE PEDRA DO VING TSUN possui duas versões: uma padrão e uma especial.
Embora o conteúdo do livro seja o mesmo em ambas, a versão especial possui alguns elementos distintivos. A princípio, pretendia-se que tais elementos integrassem todos os exemplares da primeira edição, porém, pelo fato de alguns deles poderem interessar apenas a colecionadores, foram limitados a comparecer em um certo número de exemplares somente.
O que caracteriza a versão especial da 1a edição de O LIVRO DE PEDRA DO VING TSUN?
O conjunto de quatro aspectos caracteriza a parte especial da primeira edição: a encadernação, a almagradura, a numeração e o anexo.
O que distingue a encadernação utilizada na versão especial?
Como técnica específica de acabamento de livros, a encadernação pode ser vista como um modo de relacionamento não apenas com o suporte material da escrita, mas também com o próprio conteúdo do livro e com todo o universo que ele evoca.
A técnica empregada para encadernar artesanalmente O LIVRO DE PEDRA DO VING TSUN emula o modo de encadernação chinesa mais utilizado durante a Dinastia Ching (1644–1911), época da fundação do Ving Tsun. Trata-se do sin chong, “encadernação com fio”, em sua espécie mais conhecida – o sei muk sik, “modelo de quatro olhos” –, em que as folhas são presas exclusivamente por uma linha que perpassa quatro furos feitos a uma certa distância da lombada do livro.
A intenção de fazer essa encadernação à moda chinesa é trazer ao leitor, com as necessárias adaptações, o sabor dos livros da época referida acima.
Por que almagrar cada exemplar da versão especial?
O uso do selo do autor para almagrar sua obra, ou seja, para marcá-la com tinta avermelhada, possui uma série de significados. Basicamente, tal ato ilustra a função primordial do selo tradicional chinês, que é o de autenticar. Além disso, permite ao leitor a apreciação do vívido efeito de uma estampa produzida por um selo de verdade.
É relevante o fato de ter sido utilizada uma peça confeccionada por um dos autores da famosa coleção de selos de que trata O LIVRO DE PEDRA DO VING TSUN, o artista Kwong Chi Nam, uma vez que serve de ilustração de sua produção artística mais recente. O fato de o selo conter o nome chinês – Moy Lei On – que recebeu Leonardo Mordente das mãos do outro autor da mencionada coleção, o artista Moy Yat, contribui ainda mais para o significado do uso do selo em questão.
Assim, percebe-se que o selo utilizado para almagrar a obra representa, a um só tempo, o autor do livro, os autores do objeto de discussão do livro e esse próprio objeto, daí o caráter especial de sua aplicação na obra.
De que é composto o anexo da versão especial?
Vêm anexas ao livro da versão especial, num envelope, duas fotografias originais, de uma série completa tirada em New York por Anderson Maia, diretor do Núcleo Belo Horizonte (Savassi) da Moy Yat Ving Tsun Martial Intelligence, na sessão de fotos que organizou com o fim de subsidiar o estudo completo da coleção de selos de pedra.
As fotos foram impressas em laboratório fotográfico digital, a fim de permitir a obtenção de uma representação tão fiel quanto possível das peças, principalmente em termos de definição e cor.
Qual o porquê da numeração dos livros da versão especial?
Os chineses, em especial os falantes do cantonês, dialeto oficial do Ving Tsun, têm por costume associar a certas quantidades certas qualidades específicas.
Nesse contexto, o número 108 possui um significado muito especial, uma vez que a pronúncia das palavras “um, zero, oito” – “yat, ling, baat” – pelo fato de se assemelhar à da expressão “yat ding faat” – “sucesso certo” – passa a simbolizá-la.
Por ser de bom agouro nessa cultura, o 108 foi escolhido como número de unidades da versão especial da primeira edição do livro, feita especialmente para aqueles a quem podem interessar as características distintivas da versão especial. Para tanto, cada exemplar leva uma marca numérica, que vai de 001 a 108, o que permite a identificação de seu possuidor.